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Poesias

by Alexandre Herculano

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O Caçador Feroz

(Burger)

Sua buzina tocára

O conde, altivo senhor:
«De pé, de cavallo, álerta!—
Disse; e monta o corredor.

O nobre animal relincha:

Pula e parte; e a turba após.
Ei-los vão! Quem era o conde?
Era o caçador feroz.

Por estevaes e por sarças,

Por campinas cultivadas,
Voam rapidos. Resoam
Motejos, gritos, risadas.

O sol que vinha rompendo

Em luz as veigas banhava,
E do zimborio do templo
O lanternim scintillava.

«Tlim, tlão!—convocando á missa,

Tangia o sagrado sino;
E involto nos sons de um orgam,
Do côro se ouvia o hymno.

Duas sendas lá se cruzam;

E a turba chegára lá.
Da direita um cavalleiro,
E outro da esquerda está.

Nedio ginete, qual neve

Alvo, guiava o primeiro;
O segundo, á rédea solta,
Esporeava um fouveiro.

Quem taes cavalleiros eram

Creio certo adivinha-lo,
Bem que ainda com certeza
Não me atreva a declara-lo.

Da direita ao cavalleiro

Fulgia o rosto formoso;
Porém no olhar do da esquerda
Fulgor havia horroroso.

«Bem vindos sois, cavalleiros;

Bem vindos á montaria!
Qual prazer, no céu, na terra,
Ao nosso se igualaria!—

Assim disse o conde, e rija

Palmada na côxa deu.
Atirando pelos ares
A grande altura o chapeu.

«O som da tua buzina—

Tornou logo o da direita—
Nem aos canticos do côro
Nem do sino ao som se ageita.

Ruim caçada te espera!

Atrás te cumpre voltar.
Contra ti a ira celeste
Não queiras desafiar.»

«Nobre conde monteae—

Prestes o outro atalhou—
Que importa a bulha do côro,
E se o sino badalou?

Deixae ao povo o seu medo:

Que para a relé foi feito.
Não são palavras sandías
Das que merecem respeito.—

«Ah, bem dicto! Oh tu da esquerda,

Um heroe és quanto a mim.
Só padre-nossos empecem
A algum caçador ruim!

Que tem missas, que tem resas

Com o montear, sandeu?
Se medo queres metter-me,
Falhou o calculo teu.—

Disse o conde. Ávante correm:

Vão por campinas e outeiros.
Sempre da direita e esquerda
Estão os dous cavalleiros.

Eis, lá em distancia, um cervo

Branco transpõe a assomada,
Tendo de pontas galhosas
A erguida fronte adornada.

Então o conde a buzina

Com mais alento assoprou,
E tudo, a pé, a cavallo,
Com mais rapidez voou.

Ora dos que por diante,

Ora dos que de trás vão,
Um ou outro rebentado
Fica no meio do chão.

E o conde:—Cahem? No inferno

Baqueiar podesseis vós!
Os que desalentam fiquem:
Sem elles bem vamos nós.—

N’uma seara guarida,

Fugindo, o cervo buscou:
O pobre dono do campo,
Triste, ao conde se chegou:

«Meu bom senhor—clamou elle—

Compaixão, meu bom senhor!
Ah, poupae mesquinhos fructos
De um abundante suor.—

Da direita o cavalleiro

O conde amoestou então:
Cortezes eram seus dictos,
Cortezes e de razão:

Mas, atiçando-o o da esquerda

Á maldade perpetrar,
Desprezou o da direita
Para o maldicto o enredar.

«Fóra cão!—ao camponez

Grita o conde esbravejando—
Quando não, com mil diabos,
Soltar-te a matilha mando.

Álerta, socios! O açoute

Pelas orelhas chegae-lhe;
E que sou fiel ás juras
Dessa maneira provae-lhe.»

Dicto e feito. O conde salta

Por cima os vallos fronteiros;
E atrás delle, estrepitando,
Homens, cavallos, balseiros.

O tropel, com grita horrenda,

Pisa e destroe a seara;
Que ninguem do lavrador
Dorido choro escutára.

Pelo estridor acossado,

Que já bem perto sentia,
O cervo os crueis intentos,
Veloz fugindo, illudia.

Através de montes, valles,

Perseguido e não tomado,
Manhoso se foi metter
Entre um rebanho de gado.

Entrando do campo ao bosque,

Saindo do bosque ao claro,
Seguiram-no os cães, e em breve
Lhe acharam da pista o faro.

Cheio de angustia o pastor,

Por seu rebanho temendo,
Por terra se arremessou
Aos pés do conde, tremendo.

—Deixae meu pobre rebanho;

Senhor, tende dó de mi:
De muitas tristes viuvas
O gado retouça aqui.

Cada qual das pobrezinhas

Tem das rezes uma só:
Eis toda a sua riqueza:
Senhor, tende dellas dó.»

Da direita o cavalleiro

O conde amoestou então:
Cortezes eram seus dictos,
Cortezes e de razão:

Mas a maldade do conde

Sempre atiçava o da esquerda,
E elle, o bom ludibriando,
Corria á ultima perda.

«Cão! A mim oppôr-te queres?

As contas vou-te eu fazer.
Quem me déra entre essas vaccas
Comtigo as taes velhas ver;

Que seria o mais suave

Prazer do coração meu
Montear-vos, mais que fosse
Pelas campinas do céu.

Álerta, socios, ávante!

Cães, avança! csê! perdido!—
E os cães no que acham mais perto
Saltam com fero latido.

O pegureiro por terra

Cái em seu sangue banhado,
E sanguento o gado fica
Todo alli atassalhado.

Á morte escapou a custo

O veado, que fugia
Cada vez menos ligeiro,
N’uma floresta sombria.

Cuberto de escuma e sangue,

Perdida a respiração,
Do bosque em meio salvou-se
No alvergue de um ermitão.

Segue-o o tropel incançavel:

Estala o açoute incessante:
Soam buzinas; retinem
Os gritos de—abóca! ávante!»

O solitario piedoso

Da cabana então saíu,
E ao conde, com brando gesto,
Taes palavras dirigiu:

—Senhor, deixa teus intentos,

E o sacro asylo venera:
A creatura ao céu se queixa;
Delle teu castigo espera.

Aos bons avisos, oh conde,

Cede pela ultima vez;
Quando não, na perdição,
Certo, abysmado te vês.»

Cuidadoso o da direita

Ao conde correu então:
Cortezes eram seus dictos,
Cortezes e de razão.

Mas o da esquerda atiçando

Nelle o animo damnado,
Do bom apesar do aviso,
Ai, do mau foi enganado!

«Perdição?! Disso me rio,

Não cuideis que eu tenha susto.
No terceiro céu que fôra
Me escapára o cervo a custo.

Que me importa a ira divina?

Vae-te prégar ao deserto.
Teus sermões a montaria
Não farão falhar, por certo.—

Assim disse o conde. O açoute

Sacode; as buzinas soam.
«Csê! abóca!..—Ui! de diante
Homens e cabana voam.

De trás corceis, homens fogem:

Sons e gritos de caçada
Se esvaecem de repente
Da morte na paz gelada.

Pávido o conde olha em roda:

Tóca a buzina... não soa:
Grita... em vão: nada ouve: o açoute
Vibra: mas no ar não toa.

Para um e para outro lado

O seu cavallo esporeia...
Nem para trás voltar póde,
Nem àvante se meneia.

Então escurece emtorno:

Cada vez mais de ennegrece:
Qual sepulchro fica: ao longe
Bramir triste o mar parece.

Lá troa voz de trovão!

Que era o que dizia a voz?
Era a sentença do conde,
Sentença medonha e atroz.

«Genio infernal, atrevido

Contra Deus, homens e feras!
Das creaturas os gemidos
Resoaram nas espheras.

Tuas maldades e insultos

Alto pedem punição,
Onde da vingança o facho
Ondeia erguido clarão.

Malvado, foge; que os monstros

Do inferno te vão seguir,
Para que sejas exemplo
Aos tyrannos do porvir!»

Qual d’aurora boreal,

Flavo pallido fulgor
Tingiu então na floresta
Das folhas a verde côr.

Immovel, pasmado, mudo,

Gelado o conde ficou;
Trépida angustia dos ossos
Á medulla lhe chegou.

Frio susto pela frente

Contra elle arroja o terror:
Pelas costas o persegue
O trovão atroador.

O susto o gela; o céu ruge...

Da terra vai-se elevando
Negra agigantada mão,
Ora abrindo, ora fechando.

Pelos cabellos da fronte,

Ai, quer o conde prender!..
Elle atrás o rosto volta;
Nem mais o pôde volver.

Em roda chammeja a terra

Verde, azul, vermelho fogo:
Delle um mar rodeia o conde:
Surge o inferno em peso logo.

Lá dos abysmos profundos

Sáem mil mastins raivosos,
Que, pelo averno açodados,
Se tornam mais furiosos.

Toma alento o conde, e foge:

Por montes, por campos vai,
Do seio arrancando a espaços
Do espanto terrivel ai:

Mas por todo o largo mundo

Atrás delle ruge o inferno,
De dia do orbe no centro,
De noite no ar superno.

Ficou-lhe a face voltada,

Por mais que ávante corresse,
Sem que dos horridos monstros
Os olhos tirar podesse.

Eis como a caçada foi

Do tropel desenfreiado,
A qual até nossos dias
Tão constante tem passado,

Que, muitas vezes, durante

As horas da noite escura,
Ainda ao dissoluto causa
Do medo o horror e amargura

De bastantes caçadores

Podia a boca dize-lo,
Se antes não lhes conviesse
Calado comsigo te-lo.

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