Os Infantes Em Ceuta
Drama Lyrico Em Um Acto. (1415)
O infante D. Duarte.
O Infante D. Pedro.
O Infante D. Henrique.
Gulnar, filha do wali de Ceuta.
Lobna, escrava.
Haleva, escrava.
Um pagem.
Um sobrerolda.
Côro de cavalleiros portugueses.
Côro de cavalleiros mouros.
Côro de escravas, e de eunuchos negros.
Scena I.
Sala d’armas do alcacer de Ceuta. Córos de cavalleiros portugueses. D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique entram na scena agitados: D. Duarte pára, cruza os braços e contempla por um instante os cavalleiros que ficam immoveis: os infantes afastam-se para um lado falando a sós, e volvendo de quando em quando os olhos para o principe.
D. Duarte
Eia pois, cavalleiros! Breve os mares
Cruzaremos de novo além do Estreito!
Os inimigos timidos refogem
Da conquistada Ceuta.
Pelas campinas pallidas, ao longe,
Das altas torres espraiando os olhos,
Não se vê alvejar lá no horisonte
Um albornoz mourisco.
Folgue o que volta á patria enriquecido
Pela ganhada gloria: folgue aquelle
A quem coube o desterro entre estes muros,
Por conservar erguida
Sobre a mesquita a cruz, sobre as ameias
O estandarte real: morrendo, é martyr:
Seu nome eterno viverá na historia.
Folgae, meus cavalleiros!
Côro de Cavalleiros Velhos
Oh, bem vinda, bem vinda essa nova,
Para o velho homem d’armas d’elrei,
Que ha trinta annos nos diz:—combatei!»
Sem jámais a armadura largar!
Sob o forro do elmo pulido
Nossa fronte, senhor, se enrugou,
E estes peitos robustos quebrou
Dos arnezes continuo pesar!
Bem vinda a hora
Em que voltemos,
E emfim saudemos
O nosso lar;
Em que possamos
No patrio rio
O sol do estio
Ver scintillar;
E, dos sinceiros
Entre a espessura,
Da guerra dura
Ir repousar!
Côro de Cavalleiros Mancebos
Parti vós, cavalleiros:
A Portugal tornae;
E o nosso nome ás bellas
Donzellas
Lembrae!
Dizei-lhes que, se ás lides
Votámos peito e braços,
Por ellas suspiramos,
E amamos
Seus laços;
E que destes labios
Palavra amorosa
Por moura formosa
Jámais sairá.
Opprobrio e vergonha
Ao que as esquecer!
Infamia ao que arder
Por filha d’Allah!
D. Pedro e D. Henrique dirigem-se, com colera mal reprimida, ao meio dos cavalleiros.
D. Pedro E D. Henrique
Infamia, dizeis vós?
D. Duarte
Aproximando-se vivamente delles, e guiando-os pela mão para a frente da scena.
Por Deus, calae-vos!
Ignoram vosso amor esses guerreiros.
Da patria elles falavam:
Não a trahir juravam.
E vós? Vós que sois filhos
D’elrei de Portugal; vós, cavalleiros,
Que d’Aviz e Lancastre a gloria herdastes,
Vosso nome manchastes
Com um affecto ignobil...
D. Pedro E D. Henrique
Que ousaes dizer, senhor!
D. Duarte
Sim, ignobil affecto! Amor gerado
Entre rios de sangue, ao lampejarem
Cruzados ferros, no aduar mourisco
Á viva força entrado.
Conduziu-vos, dissestes-me, o combate
A suberbo palacio. Alto repouso
Era de morte ahi: seus defensores
Tinha-os o ferro português ceifado,
Duas mouras formosas,
Vencidas do terror, na fuga anciosas,
Cahindo a vossos pés pediram vida,
Liberdade, honra, e vós...
D. Pedro
Assegurámos-lhes
Liberdade, honra e vida. Oh, somos filhos
D’elrei de Portugal, e cavalleiros!
Era o nosso dever.
D. Duarte
E era-o cederdes
A um amor insensato; o prometterdes
Pelas nocturnas trévas conduzi-las
Ás naus que vão partir?
D. Henrique
Será rouba-las
Á falsa crença do koran...
D. Duarte
Com vehemencia.
E a infamia
Lhes gravareis depois nas frontes puras?
Isso é torpe! Isso é vil!
D. Pedro E D. Henrique
Senhor infante!
D. Duarte
Com ardor.
Oh, que não ha-de ser! No quarto d’alva
A armada partirá.
D. Pedro E D. Henrique
Com inquietação.
Zombaes?
D. Duarte
Ouvi-me!
É o mandado d’elrei...
Dirigindo-se aos cavalleiros.
Meus velhos guerreiros,
As armas tomae,
E á praia fremente
Os passos guiae;
Que as náus já fluctuam:
Não tarda o partir.
Nos mares a aurora
Veremos surgir.
Côro de Cavalleiros Velhos
Ajoelhando e estendendo os braços para o céu.
Virgem! Esperança!
Estrella do mar,
Ouvi nosso orar;
Mandae-nos bonança!
Salvae-nos, salvae-nos!
E á patria levae-nos!
Erguem-se e vão saindo. Ouve-se-lhes ainda ao longe.
Á patria levae-nos!...
D. Duarte
Guerreiros novéis
As armas vestí,
E os muros de Ceuta
De lanças cubrí.
Bandeira da serpe,
Bandeira d’elrei,
No alcacer, nas torres
Guardae, ou morrei!
Côro de Cavalleiros Mancebos
Tirando as espadas e cruzando-as umas sobre outras.
Contentes saudamos
Os dias de guerra:
Ser dignos da terra
Da infancia juramos.
O braço não treme!...
O peito não teme!...
Vão saindo, e ouve-se-lhes ainda fóra:
O peito não teme!...
D. Duarte
Restam bem poucas horas:
Salvos estaes infantes!
D. Pedro E D. Henrique
Sabe um amor immenso
Horas fazer de instantes.
D. Duarte
Que!? Ousarieis ‘inda?...
D. Pedro E D. Henrique
Nós ousaremos tudo!
D. Duarte
Não! Filial piedade
Vos servirá d’escudo!
Com gesto supplicante.
Pela memoria sancta
De nossa mãe querida,
Que na feral jazida
Tal crime assombrará,
Afugentae qual sonho
Esse insensato amor,
Que o odio, que o furor
Do céu accenderá!
D. Pedro E D. Henrique
Mas deste amor profundo
Quem nos libertará?
D. Duarte
Vêde quem sois, e o mundo
Como vos julgará!
D. Pedro E D. Henrique
Duas formosas almas
Por nós a fé ganhou.
D. Duarte
Antes por vós o sangue
De Aviz se deshonrou.
Um Pagem
Entrando apressado.
Principe, elrei vos chama.
D. Duarte
Ide; eu vos sigo.
Lançando os braços ao pescoço dos dous infantes apenas o pagem sáe, D. Duarte os vem conduzindo lentamente para a frente da scena.
Oh meu Pedro, oh meu Henrique,
Louco intento abandonaes?!
Não passar de Ceuta as portas
Hoje, aqui, vós me juraes?!
Os dous, volvendo olhar rapido um para o outro
D. Pedro E D. Henrique
Senhor, do sceptro herdeiro,
Vossos irmãos mandaes...
De Ceuta as ferreas portas
Não cruzaremos mais!
D. Duarte
Basta-me tal promessa!
Só mentem desleaes.
Scena II
D. Pedro E D. Henrique
D. Henrique
Olhando para o principe que sáe, e sorrindo.
A promessa ha-de cumprir-se!
Nobre infante, vae seguro!
D. Pedro
Com hesitação.
Mas de Ceuta o erguido muro
Como além, hoje, transpôr?...
D. Henrique
Conduzindo D. Pedro a uma gelosia, e apontando para fóra.
Vedes vós, lá em baixo, esse vulto
Amplo e negro da torre de Fez,
Que inda ha pouco o mais forte pavez
Do vencido muslim se ostentou?
D. Pedro
Vejo; e lembram-me as portas robustas
Que a acha d’armas a custo desfez;
E que nesse momento se fez
Um silencio que instantes durou...
D. Henrique
E parámos; e ouvimos ao longe
Tinir d’armas, correr de corceis,
E o confuso bradar d’infiéis,
Restrugindo os seus gritos de dor...
D. Pedro
Subterraneo caminho os salvava
Das espadas dos nossos fiéis,
Quando inuteis alfanges, broqueis
Lhes tornára profundo terror...
D. Henrique
O que ao mouro no trance tremendo
De destino cruento remiu,
Esta noite, a quem nunca mentiu
De mentir uma vez salvará.
D. Pedro
Com grande jubilo.
Oh sim! sim! Velae guardas de Ceuta!
Outras portas o amor nos abriu;
Nossa estrella dos céus nos sorriu;
O caminho, o caminho é por lá!
D. Henrique E D. Pedro
Noite placida e formosa,
Noite grata a um vivo affecto,
Para nós no torvo aspecto
Te deslisa almo prazer!
Bella noite silenciosa,
Sê propicia ao nosso intento;
Com teu véu cobre o momento
Do partir e do volver!
Scena III
Sala nos paços do wali Bensalá n’uma aldeia das vizinhanças de Ceuta. Um candelabro, que derrama uma luz frouxa, pendente do tecto. No fundo, sobre uma especie de coxim elevado, Gulnar reclinada. Côro de donzellas arabes cantando ao som de harpas.
Côro
Dorme, dorme desgraçada!
Dorme, filha do wali!
Possa o somno sobre ti
O consolo derramar.
Quando dormes é teu gesto
Brando e meigo qual de huri;
Mas vingança nelle ri
Ferozmente ao despertar.
Gulnar
Erguendo-se lentamente.
Oh, como é doce o som de vossas harpas,
Desterradas de Ceuta!.. Adormecestes
Um pouco minha dor. Senti correrem
Destes olhos as lagrymas... Ai! breve,
Repentino terror veio enxuga-las.
Meu pae... Que diz Levi?
Côro
Oh Deus!
Gulnar
Entendo:
Não tenho que esperar?..
Côro
Delira. Golfa o sangue
Da profunda ferida,
Por onde foge a vida
Do inerte corpo exangue.
Gulnar
Com gesto ameaçador, e erguendo-se.
Oh, basta! Inulto,
Senhor de Ceuta, em cemiterio estranho
Não dormirás! Meu pae, Gulnar t’o jura!
Lobna e Haleva onde estão?
Scena IV
Lobna E Haleva
Entrando apressadamente assustadas.
Lobna
Eis-nos, princesa!
Os espias voltaram: tumultuando
Na marinha de Ceuta homens, ginetes,
Ao pôr do sol: as naus soltando as vélas,
Proas á terra: o esquife após o esquife
Entre a praia e as galés cruzando as ondas;
Tudo do amir christão mostra a partida.
Gulnar
O tigre português volta ao seu antro!
Mas Ceuta...
Com amargura.
Profanada e serva és Ceuta!
O que te amou qual pae jaz moribundo
No seu leito de dor. Foi por salvar-te
Pérola rica do Moghreb. Inutil
O sangue se verteu! Oh, sem vingança
Não ficaremos nós: nós ambas orphans,
Eu desterrada e tu escrava. O nobre
Teu senhor e meu pae, talvez, da aurora
Não veja mais a luz. Mas trema o fero
Amir de Portugal! Gulnar, a filha
Do vencido wali, ha-de vinga-lo.
Lobna e Haleva esta noite...
Haleva
Hesitando.
E quem vos disse
Que elles hão-de voltar?..
Gulnar
O juramento:
O juramento seu!.. Já não sois servas,
Bellas filhas do Caucaso; sois socias
Da implacavel Gulnar. A vós a gloria
De tornar mais cruel su’ hora extrema.
Quanto ardente paixão tem de ternura
Quantas fascinações ha no amor virgem:
Quanto o meigo sorrir, quanto as promessas,
O pranto, o resistir tem de delirio;
Tudo, tudo empregae! Raio de morte,
Juncto ás portas do céu, lance-os no inferno.
Erguendo as mãos.
Escuta, emfim, meu pranto,
Dos impios vencedor:
Manda, propheta sancto,
O anjo exterminador.
Chore a roubada prole
O português amir:
Que o sangue me console
Antes de o sol surgir.
Cercae-os vós de goso:
Sintam que é bom viver:
Será mais horroroso
Meu brado:—Ide morrer!»
Vem, oh terrivel hora,
Hora do meu folgar,
Hora em que vingadora
Triumphará Gulnar.
Dirigindo-se ao côro.
Ide; patente
Do alcacer seja o ádito: silencio
Profundo reine em toda a parte: os gritos
Dos moribundos só... hão-de quebra-lo!
Vingança a Bensalá.
Côro
Vingança á patria!
Gulnar
A Haleva e Lobna com gesto terrivel.
Em breve me vereis!...
Scena V.
Lobna E Haleva
Olham aterradas para Gulnar, que sai precedida do côro, e depois correm a lançar-se nos braços uma da outra.
Haleva
Ai, como foi mesquinha
A nossa escura sorte!
Porque a terrivel morte
Os tristes conduzir?
Lobna
Oh, se Gulnar os víra,
De sangue inda banhados,
Vencidos, humilhados,
A nossos pés cahir!
Haleva
Que lhes valêra? Sangue,
Sangue só quer a hyena:
A cólera a aliena:
Não póde perdoar!
Lobna
Haleva, minha Haleva,
De susto eu titubeio:
Tu imagina o meio
De as victimas salvar.
Haleva
Miseras! Só nos resta,
Em festa sanguinosa,
Sob a traidora rosa
O aspide esconder.
Lobna
Que importa a pobre escrava
De susto e de amor trema?
Embora chore e gema,
Cumpre-lhe obedecer.
Haleva E Lobna
Sólta o suave canto
Captivo rouxinol,
Quando o nascente sol
Derrama seu fulgor;
E as aves vem, correndo,
Pousar no umbroso til,
Onde com arte vil
As prende o caçador.
O canto da avesinha
Foi nosso amor fatal!
E elles... destino igual
Lhes reservou o amor!
Scena VI
Terrado no primeiro plano da Torre de Fez, cujo corpo superior se alevanta ao lado esquerdo no fundo, seguindo para a direita a linha das ameias. Ao longe o facho de uma atalaia exterior. No cimo da torre, tambem ameiada, outro facho, cuja claridade allumia a scena, onde se vêem tres ou quatro vigias encostados ás ameias do plano inferior. Sobre a porta do corpo superior da torre lê-se a seguinte inscripção:==Esta torre de Fez ffoy combatida e entrada pollo muy eyscelente e esforçado Iffante Dom Anrigue a 21 Dagosto de 1415 annos.==É noite.
D. Duarte
Saíndo seguido de um sobrerolda, ambos apressados.
Viste-los vós?...
Sobrerolda
Jura-lo
Posso. Dous cavalleiros:
Negras armas: cavallo
Negro ambos. Ligeiros
Voam... Ouví!...
D. Duarte chega ás ameias escutando.
Ao largo
Ainda soa o tropel.
D. Duarte
Áparte com afflição e despeito.
Oh pensamento amargo!
Oh receiar cruel!
Ao sobrerolda.
Eos homens d’armas?
Sobrerolda
Velam:
Não falta um só.
Escutando para a campanha.
Ao seu correr, que anhelam
Voltar antes do dia.
D. Duarte
Não mais...
Chegando-se ás ameias, e apontando para baixo.
Para a barreira
Cem lanças o adail
Conduza: da dianteira
Todos; que valem mil!
E eu lá serei em breve:
E elles hão-de seguir-me.
Sabe-lo elrei não deve.
Ai do que ousar trahir-me!
O sobrerolda sai.
Sob o seu gesto candido
O engano se escondia!
Era uma idéa perfida
Que na alma lhes surgia,
Quando de Ceuta as portas
Juravam não transpôr!
Creram que a noite lobrega
Seu crime esconderia!
Perante o céu, oh miseros,
Que importa a noite, o dia,
Se de ira se ha turbado
A face do Senhor?
Pausa: com terror.
Mas se a suprema cólera
Terrivel já descesse!...
Se, em vez do goso vívido,
A morte os acolhesse!...
Erguendo as mãos.
Meu Deus perdoa aos tristes;
Cede á fraterna dor!
Oh minha mãe, da placida
Morada da ventura,
Guia-me os passos tremulos
Por esta noite escura,
Para salvar teus filhos,
Filhos de tanto amor!
Scena VII
A mesma sala da scena II mal allumiada pelo candelabro onde apenas arda um ou dous lumes: a gelosia está aberta: é noite escura. Lobna e Haleva saíndo pela direita, e parando de quando em quando, lançam os olhos inquietos ora para a gelosia, ora para o portico da esquerda.
Lobna
No seu rapido gyro foge a noite
Ligeira e socegada:
Fulgor da madrugada
Em poucas horas subirá d’oriente.
Não poderam voltar!... Respiro...
Haleva
Aproximando-se da gelosia.
Escuta!
Ouviste um silvo agudo?
É o signal!...
Lobna
Eu tremo...
Porém não... Quedo é tudo;
Salvo um ruído sussurrando ao perto,
De almogavar talvez...
Haleva
De dous ginetes
O tropeiar parece... Elles!... São elles!
Sobre trajos de ferro espadas tinem!
Não ha que duvidar...
Lobna
Oh! desfalleço!
Ouve-se um sibillo já perto.
Haleva
Ei-lo o triste signal, signal de morte!
Á sua esquiva sorte
Não poderão fugir! Meu Deus!
Lobna
Patente
Ante si tudo hão-de encontrar. Se ao menos
Suspeitassem de nós!
Haleva
Ei-los! Silencio!
Scena VIII
D. Pedro e D. Henrique entrando dirigem-se para Lobna e Haleva, que recuam aterradas.
D. Pedro
Lobna!
D. Henrique
Haleva!
D. Pedro
O juramento
O momento é de cumprir!
De partir não tarda a hora:
Ha-de a aurora
Refulgir-nos juncto ao mar.
D. Henrique
Sobre os rapidos corceis
Nós fieis vos guiaremos
Aonde achemos mil delicias
Nas caricias
De que amor nos vai cercar!
D. Pedro E D. Henrique
Vinde! a noite nos protege:
Dorme tudo pela aldeia;
E este braço não receia,
Quando cumpre, o pelejar.
Vinde ser enlevo d’almas,
Sob um céu meigo e sereno;
Que nunca ha-de o sarraceno
Como nós saber amar!
Lobna
Correndo ao portico da direita, e voltando com afflicção e energia.
Fugí breve, oh desgraçados,
Que cercados sois da morte!
Queira a sorte que um momento
Seu intento
A cumprir tarde Gulnar!
Haleva
De ninguem serdes sentidos,
Já perdidos, ainda creis!
Mal sabeis vos esperava
Quem velava
Para em vós um pae vingar!
Lobna E Haleva
Triste umbral haveis cruzado,
Do wali ultimo abrigo,
Que no extremo do perigo
Jaz a ponto d’expirar.
Por seu sangue a feroz filha,
Que essas portas franqueiou,
Vingativa aos céus jurou
Vosso sangue derramar.
D. Pedro
A perfidía em recompensa
Só achou o nosso ardor?!
Desleaes! Porque o furor
De mulher cruel servir?
D. Henrique
Porque a vida nos pedieis,
No olhar terno amor pedindo,
Quando os golpes retinindo
Era livre inda o fugir?
D. Pedro E D. Henrique
Porque em noite deliciosa
De delirios seductores,
Generosos vencedores
Só pensaveis em trahir?!
Lobna
Uma idéa tenebrosa
De Gulnar surgiu na mente
Nessa noite, em que estridente
Veiu a espada aqui luzir:
Haleva
«Ide:—disse-nos—sois bellas:
Fascinae os nazarenos,
Talvez possa assim, ao menos,
Da vingança a senda abrir!»
Lobna E Haleva
A leôa do deserto
Entre as cervas se escondia:
Seu aceno constrangia
Pobre escrava a amor fingir.
D. Pedro E D. Henrique
Com vivacidade e despeito.
Era pois um falso affecto?!...
Lobna
Foi-o só um breve instante...
Haleva
Hoje puro, hoje constante
Lobna E Haleva
Far-nos-ha por vós morrer.
D. Pedro
Pondo a mão sobre o punho da espada.
Que ella venha, pois, e a cerquem
Seus escravos traiçoeiros!
Portugueses, cavalleiros
Somos nós: ha-de tremer!
D. Henrique
Sabe o forte nos combates
Se este braço é prompto e duro;
O covarde, que no escuro
Fere só, o ha-de saber!
Lobna E Haleva
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Oh, fugi; que ainda é tempo,
Antes de ella aqui volver!
4
D. Pedro E D. Henrique
Partiremos! Dentro em breve
Nos vereis aqui volver!
O exterior da sala illumina-se de repente: a luz penetra pela gelosia, e pelos porticos da direita e da esquerda. Os infantes, que vão a sair, param e escutam.
Côro de Guerreiros Mouros, fóra
Gloria ao sancto propheta que aos impios
A cerviz insolente vergou,
E do amir português crueis filhos
Do muslim ao punhal entregou!
Lobna E Haleva
Bateu funerea hora...
Morreu nossa esperança!
D. Pedro E D. Henrique
Resta-nos a vingança...
Sangue por sangue... Embora!
Scena IX
Eunuchos negros armados de punhaes, que se precipitam na scena e vão collocar-se no fundo do theatro. Gulnar, saindo da direita, encaminha-se vagarosamente para as escravas e para os infantes.
Gulnar
A Lobna e Haleva.
Fugir?!... É tarde, infames!
Vós me trahieis, vís!
Tremei! Gulnar velava...
E eu sou vosso juiz!
Aos infantes.
Deponde inuteis ferros,
De Ceuta vencedores!
Lá fóra meus guerreiros...
Apontando para os eunuchos.
Alli meus vingadores.
Lobna
Haleva
«Ide trahi-los—
Impia, disseste...
Mui facil creste
Fingir amor.
Para trahi-los
Nos escolheste!..
Se nos venceste
Foi por temor.
Lobna E Haleva
Morrer com elles
É grata pena...
Feroz hyena,
Temos-te horror.
D. Pedro
D. Henrique
Aos teus escravos,
Mulher infida,
Mais larga vida
Deixa gosar!
Os teus escravos
Com mortal lida
A nossa vida
Tem de comprar!
D. Pedro E D. Henrique
Que nunca o susto
Nos fez no p’rigo
O ferro amigo
Abandonar.
Começa a ouvir-se um ruído como de golpes de machado.
Gulnar
Da louca audacia,
Da van affronta
Vingança prompta
Gulnar vai ter.
O ruído augmenta: tinir d’armas, gritos confusos.
Mas qual ruído
Confuso soa?
Porque reboa
Voz do adail?!...
Ao chefe dos eunuchos, apontando para o portico da esquerda.
Hussein!.. O ferro
Retine!.. Gritos!
Gemer d’afflictos!
Sons de anafil!..
Toque de trombeta fóra. Hussein sai correndo pela esquerda: Gulnar fica suspensa.
D. Pedro E D. Henrique
Que escuto?! Lá bradaram:
—São Jorge! Ávante, ávante!»
Oh jubiloso instante!
Restruge o pelejar.
Gulnar
Acenando aos eunuchos.
Morram os impios! Morram!
Servos, rasgae seu peito.
Sintam, emfim, o effeito
Dos odios de Gulnar.
Os infantes dirigem-se para o portico da esquerda: os eunuchos apinham-se diante delles com os punhaes erguidos: o côro das donzellas arabes precipita-se na scena pela direita com gestos de assombro e terror: no mesmo tempo pela esquerda guerreiros mouros fugindo desordenados diante dos cavalleiros portugueses, que rompem por entre os eunuchos e os dous infantes.
Scena X E Ultima
Os dictos: D. Duarte: córos de cavalleiros portugueses e mouros: côro de donzellas arabes. Os mouros fugindo param no fundo da scena, e os cavalleiros portugueses prolongam-se pela esquerda. Gulnar, recuando, fica rodeada dos eunuchos e das donzellas. Lobna e Haleva refugiam-se juncto dos infantes.
Côro de Donzellas
Que horrivel espectaculo!
Por toda a parte a morte...
Côro de Guer. Mouros
Côro de Cavalleiros
Ferros inuteis, ide-vos:
Cumpra-se a nossa sorte!
Cede o agareno timido:
Honra ao valor do forte!
Depondo os alfanges no chão.
Brandindo as armas.
D. Duarte
Lançando os olhos para os eunuchos armados de punhaes estremece, e correndo para os infantes, ergue as mãos ao céu.
Vivos ainda, e incólumes!
Graças te dou, Senhor!
Laços de um impio amor
Vinha-lhes eu partir...
E a morte ia-os ferir!..
Graças, oh meu Senhor!
D. Pedro E D. Henrique
Curvando o joelho aos pés de D. Duarte.
Foste enganado, e salvas-nos!..
Perdoa, nobre infante!
Foi de delirio instante,
Que ao erro nos levou.
Lobna E Haleva
Agita ancioso o seio
Insolito pulsar;
Mas d’horrido receio
Não é este agitar!
D. Duarte
Pedro, Henrique, sois salvos! Invencivel
A espada portuguesa,
Mais uma vez, terrivel,
A barbara fereza
Dos infiéis domou.
O perfido punhal,
Da vingança guiado, em vão se alçou...
Gulnar
Adiantando-se.
Vencestes, nazarenos!
Folgae na vossa gloria...
Seguí facil victoria.
Puní-me! Eis-me captiva...
Do vosso amir na prole
Vingar meu pae eu quiz...
Pensando-o era feliz:
Agora infeliz sou.
Morrer é a esperança,
Que o fado me deixou.
Côro de Cavalleiros
Interrompendo Gulnar, e brandindo de novo as armas.
Pune, oh principe, infames traidores:
Lava a affronta do sangue real!
Dos covardes, em trance fatal,
Tinja as faces da morte o pallor!
Côro de Guerreiros Mouros E Donzellas
Com gesto supplicante.
Por piedade, dos teus seguidores
Não escutes o voto lethal!
Generoso, o seu odio infernal,
Por piedade, não ouças, senhor!
D. Duarte
Aos cavalleiros.
Silencio!
Aos mouros.
Livres sois.
Aos cavalleiros.
Nunca aos vencidos
Sangue pediu meu pae. Eu serei digno
Filho do vosso rei.
A Gulnar.
Mulher, és livre.
Gulnar
Tua clemencia hypocrita,
Tyranno, vem mui tarde!
Pensas apagar, barbaro,
Fogo que immortal arde?!
Dá-me Ceuta, a miserrima:
Torna-me um pae que expira:
Foge das praias d’Africa
Serva, que mal respira!
Foras assim magnanimo:
Grata Gulnar te fora:
Sem isso, um favor unico,
Prompto morrer te implora!
Côro de Mouros E Donzellas
Côro de Cavalleiros
Turba-te a dor e a cólera,
Filha de Bensalá:
A tua raiva indomita
É van e inutil já!
Da perfida a van cólera
Inutil brame já:
Do seu cruel proposito
Ella nos vingará.
Em quanto duram os córos o principe e os infantes falam em voz baixa: os infantes apontando para Lobna, e Haleva: D. Duarte mostra-se agitado, e depois dirige-se rapidamente para ellas.
D. Duarte
Tomando pela mão as duas escravas.
Não!... Innocentes victimas
D’impios não deveis ser!
O vosso amor ingenuo
Cumpre-vos esquecer;
Mas a vingança barbara
Não vos entregarei.
A Portugal seguindo-nos
Olhando para os infantes com aspecto severo.
Eu vos protegerei!
Lobna E Haleva
Só ir nos concede
O fado inhumano
Além do oceano
De amor expirar!
D. Pedro E D. Henrique
Nest’hora solemne
Do peito no arcano
Nosso amor insano
Juramos calar.
D. Duarte
Da nossa clemencia
Aprenda o africano
A ser nobre e humano,
E o que é perdoar.
Gulnar
Do meu odio immenso
Cruel desengano!..
Feroz lusitano
Se ri de Gulnar!
Côro de Cavalleiros
Risquemos da mente
O perfido engano;
Que o principe humano
É bello imitar.
Côro de Guerreiros Mouros E Donzellas
A nobre clemencia
Do heroe lusitano
Áquem do oceano
Sempre ha-de lembrar.