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Poesias

by Alexandre Herculano

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Livro Segundo

Poesias Varias

A Perda D’Arzilla

(1549).

Era noite: do céu limpo e sereno
Milhões d’estrellas trémulas pendiam,
Quaes as nocturnas lampadas d’um templo,
E as ribas ermas sussurrar se ouviam.
D’alterosa galé o negro vulto
Corta ao largo, bem largo, o mar do Algarve,
E lá nas serras d’Africa fronteiras
Branqueja a espaços o albornoz do alarve.

Como tocheiros com brandões accesos,

De um féretro ao redor,

Cuja vermelha luz o horror da morte

Só faz sentir melhor,

Taes as nocturnas almenáras fulgem

Nas torres d’atalaia,

Pelos outeiros, que circumdam muros

De povoação na praia.


Arzilla, a guerreira.

Lá jaz na afflicção,
Que a rendeu aos mouros
Elrei dom João.

Tomar-te-ha Deus contas,

Rei fraco e prasmado,
De tão grande vilta,
De teu grão peccado.

Maldiz-te nos mares

Valente fronteiro,
Que na sé de Ceuta
Se armou cavalleiro;

Que dez aduares

Em Tanger queimou,
E em muros d’Alcacer
Dez elches matou:

Que era hoje d’Arzilla

Temido adaí­l,
E a quem tu mandaste
Fugir como vil.


Vêde-o lá na gavia

Da negra galé,
De braços cruzados,
Immovel, em pé;

E a náu que arfa e voa

Na fremente via,
Ferindo na esteira
Fugaz ardentia;

E d’Africa as praias,

Que a ré vão fugindo,
E as vagas, que rolam,
Distantes mugindo.

Em roda o silencio:

No céu noite escura:
E o peito do triste
Confrange a amargura.


Do veterano as faces

O salso pranto réga:
Nos africanos montes
Saudoso os olhos préga.

Sente no seio as ancias

D’incomportavel dor,
E ás vezes range os dentes
Em trances de furor.

Um cantico á su’ alma

A indignação inspira:
Vai sussurra-lo ao longe
Aura que branda espira.

O Canto Do Adaíl

Quando, ao longe, nos campos d’Arzilla,

Alvejava do mouro o albornoz,
E corria, e corria veloz
O ginete de Bellamarim;

Quando o esculca, saído da villa

Da manhã ao primeiro fulgor,
Não podendo a atalaia transpôr,
Vinha ás portas bater de Çafim;

Quando em Tanger, a forte, se ouvia

De armaduras continuo tinir,
E nos ares se via luzir
O montante, a acha d’armas, e o criz;

Quando em Ceuta vencida se erguia

Sobre o alcacer pendão português,
Contra o qual na mesquita de Fês
A gazúa prégava o caciz:

Quando Alcacer-Ceguer, a viçosa,

Que em vergeis se reclina gentil,
Pela noite fragrante d’abril
D’entre os robles sorria ao luar;

Porque, rico de presa formosa,

Já voltou nobre alcaide christão,
E inda ao longe de incendio o clarão
Tinge o céu sobre um triste aduar:

Nossa estrella era então esplendente;

Nosso nome era um som do terror;
Nossos paes conduzia o Senhor,
Qual Judá d’entre a sarça do Horeb.

Portugal, oh leão do occidente,

Tu rugias á beira do mar,
E o teu grito cá vinha troar
Temeroso no ardente Moghreb:

Era o tempo dos crentes e ousados:

Era o tempo da gloria da cruz!
Ora contam-se as páreas d’Ormuz;
Tem só nome Cochim, Calecut!

E esses muros d’Arzilla, regados

Com o sangue de martyres mil,
Ermos hoje tu deixas, rei vil,
Porque o Estreito passou Rais Dragut!

Oh valentes da India, do oceano,

Roncadores de féros no mar,
Cuja espada, porém, faiscar
Não sabe inda do mouro no arnez,

Mostrar vinde o valor sobre-humano

Neste clima de sol mirrador!
Aqui fama se compra com dor:
Facil gloria esquecei uma vez.

As galés do arrais mouro são fortes;

Sua chusma berbers do Takrur;
Como o vosso rei indio, Badur,
Não ha-de elle acabar á traição.

Uma festa de sangue e de mortes

Do occidente nas vagas tereis;
Elmos rijos aqui achareis,
Não o craneo d’inerme sultão!

Mercadores!—deixae vosso cravo,

A canella, a pimenta, o marfi;
Os vestidos de seda despí;
Ponde, em vez de collar, um gorjal.

Vella e remo soltae no mar bravo;

Vinde juncto de nós combater;
Nós que Arzilla deixámos perder,
Porque elrei... é um rei desleal.

Para nós os castellos d’avante;

Para nós a arrombada e bailéu;
Para nós pelejar ante o céu,
Que nos campos d’Arzilla nos viu:

Para nós o machado e montante;

Para vós a bombarda e arcabuz;
Para nós, ao cahir, ver a luz;
Ver a mão que estes peitos feríu;

Para nós o tombar derradeiro

Sobre o ferreo esporão das galés;
O pelouro, de sob o convés,
Cá de longe enviar... para vós!

O sudario do morto fronteiro

Alva escuma da proa será;
E em seus labios—Arzilla!—ouvirá
Quem ouvir sua ultima voz.


E elles, os fortes d’Asia, não vieram
Do cavalleiro d’Africa ao chamar;
E a náu d’elrei ao infamado Tejo

Veio aportar:

E o adaíl depôs as armas rotas,

Não no espaldar;

Que nunca o bom fronteiro viram mouros

Costas voltar.


E tomando o bordão de peregrino,
Foi-se á Batalha, que é mosteiro pobre

De dominicos,

Frades mui sanctos, que os judeus queimavam,

Porque eram ricos.

No meio desses tumulos, que encerram
Os despojos mortaes dos reis que foram,

Féretro antigo

O adaí­l procurou. De um rei soldado

Era o jazigo.

Quando o viu, ajoelhou nos degraus delle,
E palavras, que as lagrymas cortavam,

Lhe dirigiu:

Maldicção para alguem pedia ao morto;

Mas nada ouviu!

Então, livido o rosto, os labios brancos,
A fronte lhe pendeu sobre o ataúde

Do rei extinto.

Expirára ao dizer—perdeu-se Arzilla!—

A Affonso Quinto.

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