O Mosteiro Deserto
I
No mosteiro vai fundo o silencio;
Um silencio que gera terror;
Só nos tectos, que banha o luar,
Sólta o mocho seu pio de horror:
Só o vento que gyra nos pateos,
E se engolfa na escada ogival,
Ramalhar vem nas folhas dos ulmos,
Que ladeiam normando portal.
Meia noite. E na crasta deserta
Não reboam os ecchos do sino,
Que, vagando, murmuram nas cellas:—
São as horas do officio divino.»
Meia noite! Bem como na torre
Voz de bronze dormente parece,
Tal o monge, na dura jazida,
Priguiçoso do templo se esquece.
Monge, o brado nocturno do sino
Ao resar não te chama, é verdade;
Mas talvez já no topo do côro
Somnolento te espera o abbade.
Nada quebra o remanso da noite
Pelas gothicas, vastas arcadas:
Nem de quicios ranger vagaroso,
Nem murmúrio de lentas passadas.
«Está só o mosteiro?—
Este grito
Repetiram-no os ecchos inteiro;
E, bem como em resposta á pergunta,
Retumbou:
—Está só o mosteiro!»
Pouco ha inda, na alta noite
Passava no espaço a lua,
Dos ulmos a cima ondeava
Negra, qual ora fluctua:
Mas tenebroso silencio
Não ía, como ora vai:
Bradava o sino da torre
Aos monges dizendo:—orae.»
E pelos vidros córados
Reverberava fulgor;
De passos no longo claustro
Soava tenue rumor.
Depois, lá dentro na igreja,
Em côro alterno rompia
O canto lento dos monges,
Que ás vozes do orgam se unia:
Porém, como se ao sopro do archanjo
A trombeta final retumbasse,
E da vida o tumulto na terra
Ao terrivel signal expirasse,
Assim do orgam calou a harmonia,
E dos córos os hymnos calaram,
E os fulgores das lampadas frouxos
Das vidraças não mais transudaram.
II
É que o filho dos ermos, renegando
Das tradições antigas,
Desceu a pelejar na ardente arena
Das facções inimigas.
Amar, soffrer, orar era a existencia
Que lhe talhára a sorte;
Enxugar muitas lagrymas na terra,
Erepousar na morte;
Realisar té onde é dado ao homem
Esse typo ideal,
Que nos legou o Salvador, tomando
Nossa veste mortal.
E não o quiz. Sacrilego, do pobre
A herança, que a piedade
Confiára ao ministro de uma crença
Que é toda caridade,
Offertou-a, traidor a Deus e aos mortos,
No altar impio da guerra,
E, abrindo o manto, sacudiu irado
A assolação á terra.
De noite no bosque,
Na gandra deserta,
No viso do monte,
Do valle na aberta,
Á luz das estrellas
As armas fulgiam,
E ouviam-se ao longe
Corceis que nitriam:
Horrendo propheta
O abutre passava,
E sobre as encostas
Calado pairava:
Depois, na alvorada,
Com gritos sem fim
Saudava do sangue
Vizinho o festim.
E á voz das trombetas,
Ao trom dos canhões,
Ao som das passadas
De vinte esquadrões;
E em meio do fogo,
Do fumo alvacento,
Em rolos ondeando
Nas asas do vento,
De agudas baionetas
A renque brilhante
Tremente avançava,
Ao brado de—ávante!»
E ao baço ruído
Dos leves ginetes,
No plaino calcando
Da relva os tapetes,
Os ferros cruzados
Luctavam tinindo,
Peões, cavalleiros
De involta ruindo,
E a ferrea granada
Nos ares zumbia,
E aos seios das alas
Qual raio descia.
E aos ares, revolta,
A terra espirrava,
E o globo encendido
Um pouco se alçava,
E prenhe de estragos,
Com fero estampido,
Mandava mil golpes,
Em rachas partido.
E as horas passavam
Em scenas de morte;
E o abutre mirava
Os trances do forte.
Na garganta da serra ou sobre o outeiro,
Pelo pinhal da encosta ou na campina,
Nesse dia de atroz carnificina,
Negros uns vultos vagueiar se viam:
A cruz do Salvador na esquerda erguida,
Na dextra o ferro, preces blasphemando,
«Não perdoeis a um só!—feros bradando,
Entre as fileiras rapidos corriam:
E era o monge que bradava,
E era o monge que corria,
E era o monge que, blasphemo,
Preces vans a Deus fazia;
Vans que, á tarde, nesse plaino
No sangue d’irmãos retincto,
Só restava o moribundo,
O cadaver só do extincto.
E por gandras e por montes,
Aterrados, perseguidos,
Em desordenada fuga
Retiravam-se os vencidos.
E os vencidos eram esses
Que a esperança da victoria
Arrastára, miserandos,
A uma guerra impia, sem gloria!
Lá dos gritos de raiva baldada
Restrugia o confuso clamor,
E o gemido do mau desgraçado
Na alma oppressa gerava terror.
Cáia em pó o mosteiro; e maldicto
O que ergue-lo outra vez intentar,
Se não treme ante as nuas cáveiras,
Que insepultas verá branquejar!
III
Surge a luz da alvorada. Podessem
Dessas campas geladas que vejo
Os bons monges dos tempos antigos
Surgir vivos á voz de um desejo!
E que ao longo das vastas arcadas
Se escutassem seus passos serenos,
Como se ouve o tranquillo regato
Sussurrar nestes campos amenos!
Quem então não curvára ante o velho?
Quem a bençam da mão descarnada,
Como a bençam do céu, não pedíra
Da virtude ao poder confiada?
Quem ousára soltar no deserto
Estridente clangor da trombeta,
E fazer scintillar pela noite
A cruel decisiva baioneta?
Quem ousára o sorriso do insulto
Juncto ao negro edificio soltar,
E com goso, na mente, por terra
Suas grimpas jazendo pintar?
Mas ha muito que os bons se finaram;
Mas ha muito que ás dores fugiram,
E depois, nesses velhos sepulchros
Quantos maus inquietos dormiram!
Quem o sabe? Quaes foram? Seus nomes
Pereceram: ninguem o dirá.
O que o sabe os julgou; e do abysmo
Nem um ai o cantor tirará.
Mas, oh harpa, transmitte as saudades
Do que foi em legado ao porvir,
E o presente, que em breve ha-de o olvido
Com o seu amplo manto cubrir.
Contarão as canções do poeta
Tão-sómente do claustro o segredo.
Vai a hera vestir estas pedras:
Cahirá este annoso arvoredo.
Sim, virá a segure insensata
Da montanha o senhor derribar!
Rei deste ermo, que os curos insultas,
Tu serás o ludibrio do mar.
Bem antigo é teu cepo. Tu viste
O mosteiro da encosta crescer;
Viste o colmo do humilde retiro
Em arcadas, em torres volver.
Tambem nasce o regato na origem
Pobre e puro: cem valles passou;
Vai já rico, mas turvo e suberbo;
Que a torrente desceu e o turbou.
Como esta aura suave suspira
Pelos bosques, e as ramas meneia!
Como a limpha murmura na fonte,
Sobre a qual pende o merlo e gorgeia.
Cala, oh ave! Que importam teus cantos?
Quem vens tu saúdar, cantor do ermo?
É aos mortos? Aos gosos mais puros
Pôs-lhe a lousa, na terra, já termo.
Tua voz costumava o eremita
Nos bons tempos folgando sentir:
Era imagem do céu, que entre as dores
Do desterro lhe vinha sorrir.
Mas depois affligiu o malvado
Da avesinha innocente a cantiga;
Tal os olhos affeitos a trévas
A cerrar-se luz subita obriga.
Nunca ao impio na dor deu consolo
Meigo som de cadente gorgeio.
Que harpa eolia lhe adoça o azedume
De que seu coração está cheio?
Ai do mau, cuja vida travada
Vai de sustos mandados do céu!
Nunca o sol a acorda-lo tranquillo
Em seu brilho dos montes desceu.
Mas duas vezes ai delle, se na alma
Não lhe soa uma voz pavorosa,
Que o atterre, quando o ermo o rodêa,
Ao passar da procella ruidosa!
IV
É tão doce esta vaga saudade,
Na soidão das montanhas colhida,
Para quem entre mil tempestades
Transitou pelos campos da vida!
Foge a luz: é sol-posto: na aldeia
Dá o sino esse triplo signal,
Com que o espirito, erguendo-se a Deus,
Diz ao dia seu ultimo val;
E o pastor, que o rebanho guiava
Á malhada, descendo do outeiro,
Parou lá, e ajoelhou descuberto
Juncto ao velho sósinho pinheiro.
Gloria a Deus! A oração do crepusculo
Pelo tronco elevado se ergueu.
E a guia-la ante o throno do Eterno
Sancto archanjo das preces desceu.
Ao piedoso pastor no chão duro
Brando a noite o repouso trará
E por certo em seu leito da morte
Mais tranquillo inda o somno será.
A estas horas, talvez, nos combates
Um atheu expirante caíu:
Oh, eu vejo-o voltear-se entre as ancias!
O seu grito final já se ouviu!
A luz foge-lhe aos olhos: a espada
Apertou: ainda a tenta esgrimir:
Não a sente: conhece que morre,
Sem, comtudo, deixar de existir.
Não o crê: abre os olhos a custo:
Nada o ceu, que se enluta, lhe diz:
Fecha-os breve; e no extremo soluço
Pensa e existe, e a existencia maldiz.
E o atheu, que era grande na terra,
Uma campa terá magestosa;
E ao pastor naquelle adro da aldeia
Cubrirá uma gleba relvosa.
Como o atheu e o pastor, nas batalhas
Mil e mil sem alento caíram;
Mil e mil, que em seu sangue este solo,
Nas fraternas discordias, tingiram!
Essas scenas de pranto e de lucto
Quem as trouxe a esta terra querida?
Foi o monge, que em animos rudes
Instillou o furor fratricida.
Que pediamos nós? Ver abrir-se
Ante nós da familia o larario,
E dormir juncto aos ossos paternos
Somno extremo n’um pobre sudario:
Sim, poder, ao mandar-nos a morte
Nossos corpos aos vermes ceder,
Ao sol bello, e tão bello, da infancia
Com saudade, inda os olhos volver.
Respondeu-nos da balla o sibilo;
Respondeu-nos o brado da guerra!
Combatemos. Pertencem na patria
A qualquer sete palmos de terra.
Isso, ao menos, tê-lo-hemos! Da lucta
Sabe Deus qual a sorte será:
Mas á sombra do teixo da infancia
O proscripto infeliz dormirá.
Cáis em pó o mosteiro; e maldicto
O que ergue-lo outra vez intentar,
Se não treme ante as núas caveiras,
Que insepultas verá branquejar!